A autoficção como luto

a contranarrativa da AIDS em Hervé Guibert (1990)

  • Guilherme da Silva Cardoso
Palavras-chave: aids, Autoficção, contranarrativa

Resumo

A partir das obras finais do escritor francês Hervé Guibert (1990), este trabalho objetiva estabelecer a autoficção enquanto uma contranarrativa de uma experiência-limite, no caso, a epidemia de aids que se inicia na década de 1980. A compreendendo para além de suas possibilidades enquanto gênero literário, mas também como uma prática autoficcional, a elaboração desse trauma socialmente marginalizado esbarra nas limitações das escritas (auto)biográficas, e assim, pela subversão dos valores referentes à esse modelo, a autoficção manifesta-se como uma escrita estratégica que visa atravessar tais barreiras. Frente a uma experiência com tamanho poder de (des)subjetivação, possuindo temporalidades que lhe são próprias, pontuo uma aproximação com a consolidada literatura de testemunho, cujas releituras do impacto da Shoah ajudam a pensar a dificuldade da narração do trauma da aids e do luto irrealizado. O livro Para o amigo que não me salvou a vida (1990), assim, pode ser pensado como a produção de uma contranarrativa da morte decorrente por aids de Muzil, personagem associado ao filósofo Michel Foucault, colidindo com uma construção biográfica oficial baseada nos silêncios e não-ditos que encobriram a enfermidade em suas décadas iniciais, oferecendo, em resposta, a narração de uma subjetividade contemporânea e produzida historicamente.

Publicado
2019-07-18
Como Citar
Cardoso, G. da S. (2019). A autoficção como luto. Em Perspectiva, 5(1), 120-145. Recuperado de http://www.periodicos.ufc.br/emperspectiva/article/view/41642
Seção
Dossiê Temático