MEMÓRIA, CIDADE E BIBLIOFILIA
MEMORY, CITY AND BIBLIOPHILIA
Hanna Sandy de Oliveira¹
Lidia Eugenia Cavalcante²
¹ Graduada em Biblioteconomia pela
Universidade Federal do Ceará (UFC).
E-mail: hannaydnas@gmail.com
² Pós-Doutora em Ciência da Informação pela
Université de Montréal, Canadá. Professora do
Departamento de Ciências da Informação da
Universidade Federal do Ceará (UFC).
E-mail: cavalcantelidiaeugenia@gmail.com
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Recebido em: 08/05/2019.
Aceito em: 19/09/2019.
Revisado em: 13/10/2019.
Como citar este artigo:
OLIVEIRA, Hanna Sandy de; CAVALCANTE, Lidia
Eugenia. Memória, cidade e bibliofilia.
Informação em Pauta, Fortaleza, v. 4, n. 2, p.
137-155, jul./dez. 2019. DOI: 10.32810/2525-
3468.ip.v4i2.2019.41202.137-155.
RESUMO
Investiga as relações entre memória, cidade e
bibliofilia mediante revisão de literatura e sob o
ponto de vista dos autores estudados. Trata
também dos lugares de memória, apresentando a
cidade como lugar de memória, vislumbrando a
construção da identidade dos sujeitos a partir do
que é dado a ler e a ver em seu patrimônio
literário. Traz, por fim, a possibilidade da
memória dos lugares através dos livros, mediante
registros de memórias orais e em livros de ficção,
vislumbrando a literatura como meio de retratar
um contexto social, época e tempo. Apresenta
conceitos de bibliofilia, de sua possível origem e
as diferentes conotações que o termo carregou ao
longo dos séculos, assim como breve histórico da
bibliofilia no Brasil. Os resultados deste estudo
apontam que o bibliófilo possui relação com a
memória como colecionador de livros e estudioso
de sua história, cujo papel é essencial na
constituição de acervos raros e memorialísticos.
Palavras-chave: Bibliofilia. Lugares de memória.
História do Livro. Cidade e patrimônio literário.
ABSTRACT
Investigates the relation between memory, city
and bibliophilia building a literary revision
through the points of view of the studied authors.
Talks, also, about places of memory, introducing
the city as a place of memory, viewing the
construction of the identity of the subjects
through what is read and seen in their literary
patrimony. In the end approaches the possibility
of a memory from places through books and oral
registers and also in fiction, using literature as a
way to portray a social context, era and time.
Presents the concepts of bibliophilia and its
possible origins and the different conotations
that the term has carried throughout the
centuries, as well as a brief history of bibliophilia
in Brazil. The results of this study show that the
bibliophile has a relation with memory as a book
collector and student of its history, whose role is
essential in the formation of rare and
memorialistic collections.
Keywords: Bibliophilia. Places of memory. Book
history. City and literary patrimony.
Inf. Pauta
Fortaleza, CE
v. 4
n. 2
jul./dez. 2019
ISSN 2525-3468
DOI: https://doi.org/10.32810/2525-3468.ip.v4i2.2019.41202.137-155
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1 INTRODUÇÃO
A memória de uma cidade pode ser encontrada na fala de seus velhos. No livro Les
cadres sociaux de la mémoire (1925), Maurice Halbwachs, sociólogo francês, explica que
historicamente o velho, mais que o adulto, interessa-se pelo passado e que cabe a ele “a
obrigação de lembrar, e lembrar bem” (BOSI, 1979, p. 24). Halbwachs cita como exemplo
tribos primitivas, onde o velho exerce sua função social de “guardião das tradições”
(HALBWACHS apud BOSI, 1979, p. 23). Trazendo para uma perspectiva mais atual, é
possível observar que, ainda que tal papel não caiba apenas aos velhos, é neles que
recordações sem o filtro rigoroso da história podem ser encontradas. E, como escreve
Ítalo Calvino (1990, p. 14) na obra As Cidades Invisíveis (1972), “a cidade se embebe como
uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata”.
Utilizando-se do conceito apresentado por Halbwachs, além da importância do
relato de velhos para preservação da história de um local, também a necessidade de
lugares de memória em uma cidade. Segundo Pierre Nora (1993, p. 21) “lugares, com
efeito, nos três sentidos da palavra, material, simbólico, funcional” onde “mesmo um lugar
de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, só é lugar de memória
se sua imaginação o investe de uma aura simbólica”. A ideia de símbolo permite que o
conceito de lugar de memória possa ser aplicado não apenas a instituições como museus
e arquivos, mas também à cidade em um todo. Entretanto, utilizaremos inicialmente as
instituições de memória padrão para fundamentar a discussão.
Além de espaços como os citados anteriormente, a biblioteca é também “lugar da
memória nacional, espaço de conservação do patrimônio intelectual, literário e artístico.
[…] É um lugar de diálogo com o passado, de criação e inovação […]” (JACOB, 2008, p. 9).
Muito se pesquisa sobre bibliotecas públicas e seu papel na sociedade, entretanto o
estudo de bibliotecas particulares é mais complexo, devido às peculiaridades de cada
coleção, que muitas vezes refletem o perfil de seu organizador. Conforme salienta
Darnton (1995, p. 152), “o estudo das bibliotecas particulares tem a vantagem de ligar o
‘quê’ com o ‘quem’ da leitura”. No Brasil, assim como em muitos outros países, grandes
bibliotecas formaram-se tendo como base coleções particulares. “Foram os Mazarin, os
Grenville, os Barbosa Machado que, legando ou vendendo seus livros à nação,
enriqueceram o patrimônio nacional” (MORAES, 1975, p. 12).
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No livro de ensaios A Memória Vegetal (2010) Umberto Eco conceitua bibliofilia
como o “amor ao objeto livro, mas também à sua história” (ECO, 2010, p. 37). Para Eco, o
bibliófilo não apenas valoriza o livro por sua aparência estética e seu valor histórico e
literário, como eventualmente doa seu acervo para que seja disponibilizado a uma
audiência maior, geralmente em bibliotecas públicas. O bibliófilo não é apenas um
colecionador, mas também pesquisador e historiador. Ele conhece o livro, a história de
como foi feito, por quem, para quê e onde. É capaz de ver nas marginálias, no frontispício,
na tipologia e nas entrelinhas, reflexos de épocas passadas.
A partir dessas reflexões o presente texto relaciona os conceitos de memória,
lugares de memória, cidade e a memória dos lugares através dos livros, apresentando
também conceitos e aspectos da bibliofilia em geral e no Brasil, trazendo como ilustração
o bibliófilo brasileiro José Mindlin, assim como conceitos de raridade e colecionismo.
2 MEMÓRIA INDIVIDUAL E MEMÓRIA COLETIVA
O conceito de memória possui diferentes concepções, dependendo do contexto em
que está sendo aplicado. Le Goff (2008, p. 419) descreve a memória como “um conjunto
de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações
passadas, ou que ele representa como passadas”. Dessa forma, o estudo da memória é
interdisciplinar, passando por áreas como por exemplo a Psicologia, Biologia e Sociologia.
Na área da História, a memória está relacionada em especial com a função de conservar
acontecimentos do passado de um determinado local ou povo através da oralidade e
escrita, resultando na produção de documentos históricos.
Estudando a memória em sua perspectiva de fenômeno social, Maurice Halbwachs,
filósofo e sociólogo francês, identifica em A Memória Coletiva (1950) duas memórias
distintas: uma, interior e pessoal, e outra, exterior e social (HALBWACHS, 1993). A
memória interna de uma pessoa se apoia na memória social e depende do meio em que
esse indivíduo vive, das relações que forma ao longo da vida e da sua cultura. Memória,
então, está intrinsecamente relacionada ao lugar e ao intersubjetivo. Desse modo, trata-
se de uma memória coletiva, posto que é compartilhada.
Apesar de sua característica subjetiva, a memória individual se faz
inexoravelmente no coletivo, mesmo sendo simultaneamente particular ao indivíduo. A
evocação de uma lembrança requer de certo modo uma recontação do evento, seja
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considerada por um ponto de vista diferente, uma situação social ou um contexto
histórico. É 99% construção e 1% evocação verdadeira”, como explica Désiré Roustan
(apud HALBWACHS, 1990, p. 37). A percepção individual é permeada de influências, visto
que para sua realização são utilizadas ferramentas construídas no meio social, por
exemplo a própria linguagem.
A memória coletiva, por sua vez, compreende a memória de um grupo, assim como
a dos indivíduos nele presentes. Halbwachs (1990) enfatiza a importância do grupo, da
sociedade, da família, das relações e afetividades que influenciam na construção e
preservação dessa memória coletiva, assim como seu caráter de transformação constante,
posto que, assim como esses grupos podem se desfazer lentamente, a memória neles
contida também pode se dissipar.
Assim, é difícil determinar o momento em que uma memória coletiva desaparece,
ou até mesmo se ela de fato deixa a consciência dos indivíduos do grupo, pois “basta que
se conserve numa parte limitada do corpo social, para que possamos encontrá-la sempre
ali” (HALBWACHS, 1990, p. 84).
Um elemento crucial para a construção da memória coletiva é o espaço. Indivíduos
e seus grupos ocupam o espaço e por ele são influenciados, em pensamentos e percepções.
Da mesma forma, por meio das relações que os grupos mantêm entre si e seu meio, esse
espaço é modificado. Halbwachs (1990) afirma que a memória coletiva se desenvolve em
um quadro espacial, posto que o espaço é algo que dura, se faz concreto, mais do que
meras impressões:
É sobre o espaço, sobre o nosso espaço aquele que ocupamos, por onde sempre
passamos, ao qual sempre temos acesso, e que em todo o caso, nossa imaginação
ou nosso pensamento é a cada momento capaz de reconstruir que devemos
voltar nossa atenção; é sobre ele que nosso pensamento deve se fixar, para que
reapareça esta ou aquela categoria de lembranças. (HALBWACHS, 1990, p. 143).
Apesar de ser concreto, o espaço pode e é transformado, pois, como dito
anteriormente, ele muda de acordo com as relações entre os grupos que o ocupam. Isso
muito ocorre em cidades, onde suas características podem estar sempre evoluindo,
entretanto, a sua base está lá, o espaço não deixa de existir. Halbwachs (1990, p. 143)
destaca, a importância da conservação desse espaço, pois “é sobre ele que nosso
pensamento deve se fixar, para que reapareça esta ou aquela categoria de lembranças”.