Revista de Ciências Sociais — Fortaleza, v. 53, n. 2, jul./out., 2022
DOI: 10.36517/rcs.2022.2.a01
ISSN: 2318-4620

 

 

EcoSol Feminista Riveramento e Covid-19:
redistribuição, reconhecimento e transnacionalidade

 

Letícia Núñez Almeida OrcID
Universidad de la República del Uruguay, Uruguai
leticia.nunez@cur.edu.uy

Agnes Félix Gonçalves OrcID
Laboratório de Estudos e Pesquisas
Internacionais e de Fronteiras, Brasil
agnesfgoncalves@gmail.com

 

Introdução

As sociedades latino-americanas possuem os maiores índices de desigualdade de gênero do mundo, e, dentre elas, o Brasil ocupa a nonagésima posição do total de 144 países avaliados pelo Relatório Global de Desigualdades de Gênero de 2017. As mulheres brasileiras são subjugadas em diversos níveis da sociedade — destaca-se aqui que as mulheres negras e de classes sociais mais baixas são as que mais sofrem com essas desigualdades (WORLD ECONOMIC FORUM, 2017). Essa paisagem foi radicalmente agravada a partir de março de 2020, pela crise econômica e social que se instalou no país em razão da ausência de políticas públicas adequadas para abordar a chegada do vírus Covid-19 ao Brasil.1 As principais ações de prevenção e controle do contágio do vírus partem desde então dos governos estaduais e municipais:, são os decretos de “quarentena” e isolamento, os quais regulam o funcionamento do comércio e dos serviços públicos e privados, a circulação de pessoas nas ruas e estabelecimentos, o uso contínuo de máscaras, etc. As instituições de ensino foram (e estão) fechadas, e evidenciou-se rapidamente um abismo entre os que possuem condições econômicas para trabalhar e estudar em suas residências, e os que não as têm.

Nesse contexto, as desigualdades e violências de gênero estão fortalecidas por uma série de razões, entre elas: a) o desemprego em todas as camadas sociais e profissões; b) a impossibilidade de trabalhos informais como serviços de limpeza, estética, vendedoras ambulantes de produtos e alimentos; e c) a dupla/tripla jornada de trabalho em razão do fechamento das escolas e de outros serviços (COSTA, 2020b).

Como explica Macêdo (2020):

No entanto, vale lembrar, aqui, que a responsabilidade pelo trabalho doméstico formal ou não, ainda é, no Brasil, exclusivamente destinada às mulheres, representando uma desigualdade entre os gêneros masculino e feminino. Esse trabalho é marcado por dor, opressão e adoecimento, principalmente diante da naturalização da posição subalterna que a mulher ocupa na sociedade e na hierarquia da estrutura familiar tradicional, que a leva à exaustão diante dos cuidados requisitados por todos os membros da família (MACÊDO, 2020, p. 188).

Com a paralisação das atividades produtivas, alguns movimentos feministas buscaram alternativas para lutar contra o isolamento econômico e contra as violências que já eram vivenciadas antes do advento da pandemia, como as disparidades salariais, as violências domésticas, violências sexuais, violência política, entre outras. É o caso do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento, um coletivo internacional que já existia antes de março de 2020 e ampliou-se significativamente como rede — virtual e concreta — de fortalecimento das trocas econômicas, políticas e de auxílio às mulheres que vivem nas cidades de Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguay).2

Para compreender esse processo de criação de novos espaços feministas em um momento de excepcionalidade, propõe-se analisar a experiência deste Grupo a partir das discussões em torno dos conceitos de “redistribuição e de reconhecimento”, formulados por Nancy Fraser (2006), e da ideia de “feminismo sem fronteiras”, proposta por Marlise Matos (2010).

Para tanto, a metodologia utilizada possui três eixos principais, sendo eles: a pesquisa bibliográfica, a etnografia virtual e a análise de conteúdo. A primeira auxiliou na construção da fundamentação teórica do objeto de estudo (LIMA, MIOTO, 2007), no caso, a economia solidária, os movimentos sociais no recorte geográfico investigado e as teorias e conceitos feministas. Já para analisar o corpus da pesquisa, constituído pelo material empírico, utilizou-se uma confluência entre a etnografia virtual e a análise de conteúdo.

A etnografia virtual tem como objetivo compreender as práticas sociais que acontecem no meio virtual, através de interações pela Internet (MERCADO, 2012), método profícuo tendo em vista que a pesquisa empírica se deu quase que exclusivamente em plataformas virtuais como Facebook e grupos do aplicativo de troca de mensagem Whatsapp. Salvo algumas práticas etnográficas, em visitas à sede do grupo para trocar produtos e participar de compras coletivas, a investigação se valeu das ferramentas virtuais para a inserção no ambiente pesquisado, neste caso um grupo específico de mulheres que praticam a economia solidária nas cidades fronteiriças Santana do Livramento (BR) e Rivera (UY). Para analisar as trocas de mensagens nestes dois ambientes distintos, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo, pois a mesma dispõe de “uma dimensão descritiva que visa dar conta do que nos foi narrado e uma dimensão interpretativa que decorre das interrogações do analista face a um objeto de estudo” (GUERRA, 2008, p. 62). Assim, as técnicas escolhidas são as que mais se adequavam não só à construção do objeto de análise, mas também ao momento de crise sanitária vivenciado no período de estudo.

A EcoSol Feminista Riveramento versus o Isolamento

O novo coronavírus produz impactos profundos na saúde pública e no mercado de trabalho brasileiro com a paralisação das atividades produtivas, os trabalhadores informais perderam o sustento e as empresas demitiram os empregados com carteira assinada (COSTA, 2020b). Com isso, é de se esperar um crescimento na taxa de informalidade da economia brasileira, a qual atualmente está em torno de 40,8%. Ademais, com a queda no emprego e o aumento da inadimplência, cancelamento dos planos de saúde tenderão a sobrecarregar o já deficiente SUS, entre outros serviços públicos (COSTA, 2020b). É nos municípios onde as políticas de isolamento e de controle de bens e serviços são implementadas, e, portanto, onde o impacto da crise econômica pode ser observado na vida cotidiana, assim como os movimentos sociais, na busca por auxiliar ou diminuir o sofrimento e o desamparo material das pessoas nesse momento.

Uma alternativa de trabalho e renda para muitas pessoas, que não conseguem inserção no mercado formal de trabalho, é a Economia Solidária (doravante ES), que é entendida em um sentido amplo, como explica Costa (2020a), no qual os(as) trabalhadores(as) de um empreendimento econômico solidário, além de terem trabalho e renda, tornam-se proprietários(as) e, por conseguinte, donos(as) de seu capital, assumindo também o poder nas decisões. No entanto, a autora alerta que a ES envolve uma complexidade de fatores, e que, além dos aspectos econômicos, devem ser trabalhados também os aspectos inerentes à cooperação, como a solidariedade e a participação. Por esse ângulo, a ES é — como qualquer relação econômica — atravessada pelas relações de gênero. Mas, em geral, as abordagens da economia solidária compartilham da crença sobre o potencial de transformação social e de emancipação, oferecendo alternativas plurais ao capitalismo em oposição ao socialismo centralizado (HILLENKAMP et al., 2017).

Nessa perspectiva, encontra-se o Grupo Economia Solidária Feminista Riveramento (doravante EcoSol Riveramento), como espaço/rede de atividades econômicas, políticas e de auxílio colaborativo entre mulheres. Estas possuem o nível local como escala indispensável ao desenvolvimento das práticas solidárias, em um meio ambiente institucional dominado pelos princípios de mercado e comércio. Na continuação, apresenta-se uma descrição analítica desta experiência, tendo como norte (ou sul) o “valor do local como postura epistemológica”, para observação de cruzamentos entre os caminhos da economia solidária e do feminismo (HILLENKAMP et al., 2017, p. 44).

Si nos falta dinero, hacemos trueques3

Bom dia companheiras! Se o capitalismo patriarcal e opressor não reconhece de forma digna o trabalho feminino, estamos aqui para, unidas, destrui-lo e criar uma outra economia possível. Boa sorte e boa luta para nós! (LOSS, 2020a).

A falta de circulação de dinheiro e oportunidades de trabalho, em razão das políticas de isolamento, fez com que o EcoSol Riveramento se redesenhasse a partir da ideia de trueque, que no português corresponde à de “escambo”. Trata-se da prática da permuta, da troca direta, das transações em que se entrega um bem ou se presta um serviço para receber outro bem ou serviço em forma de crédito, sem que um dos bens seja moeda. Nesse caso, o trueque é ainda mais amplo, pois abrange desde as trocas de conhecimento, visando ampliar e fortalecer uma resistência à opressão patriarcal, até o auxílio nos mais variados casos de urgência, que vão desde a violência doméstica até o conserto de eletrodomésticos queimados.

O grupo nasceu na fronteira formada pelos municípios de Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguay) conhecida pelo apelido de “Fronteira da Paz”, muito criticado tanto por movimentos feministas de ambos países como por pesquisadores que buscam desconstruir a ideia romantizada de um lugar sem violência, onde os povos convivem como irmãos. São cidades-gêmeas, conurbadas, as quais somam um total de 160.000 (cento e sessenta mil) habitantes que transitam sem controle aduaneiro ou qualquer tipo de limite físico ou geográfico entre os dois países (COSTA, 2020a; ALMEIDA, 2016). Essa morfologia propicia que os movimentos sociais, neste caso tanto os grupos de ES quanto dos coletivos feministas, tenham a peculiaridade de ser binacionais, formados por cidadãos(ãs) de ambos os países, às vezes com dupla nacionalidade, que residem em um país e trabalham presencialmente ou virtualmente no outro, ou em ambos.4 Entre elas pode-se citar a Associação de Catadores Novo Horizonte,5 Coletivo Livra Elas, Colectiva Feminista de la Frontera, Fórum Permanente de Enfrentamento da Violência de Gênero e Casa de Economia Solidária, coordenada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MTST).

Pode-se dizer que a EcoSol Riveramento é formada por todas elas, tendo em vista que, em diferentes escalas, há participantes de todas essas organizações nos grupos das plataformas virtuais onde se desenvolvem as atividades cotidianas de trueques. Desde o início dos decretos de isolamento, em março de 2020, a presença nas redes se fortaleceram e intensificaram, a página do FacebookGrupo de Economia Solidária Feminista — Riveramento”, criada em abril de 2020, possui 1.664 seguidores e se apresenta da seguinte forma:

Somos un grupo de mujeres que decidió reunirse para juntas buscar alternativas económicas, de desarrollo y sobrevivencia.

Llegamos aquí cada una por su camino, con su propia historia. Pero con algo que nos une: somos mujeres, y sólo por eso tuvimos en algún momento de nuestras vidas, planes y proyectos obstruidos o interrumpidos por el régimen machista y patriarcal que vivimos. Abandonamos estudios, profesión, proyectos o rehusamos propuestas de trabajo por necesitar cuidar a los hijos, por la voluntad de otras personas o por no soportar una doble o triple jornada.

En este momento decidimos que cuando nos unimos somos más fuertes para hacer caer esos obstáculos, y más creativas para encontrar soluciones. Y de regalo todavía descubrimos que podemos amarnos cada vez más a nosotras mismas, y amarnos a todas nosotras. Porque nosotras somos en las otras.

Sororidad es la palabra que estamos aprendiendo y ejercitando a cada día de nuestras vidas.

Producimos y comercializamos mercancías, alimentos, vestimenta, arte, salud, cuidados, servicios y conocimientos. Atendemos a nuestras necesidades de consumo buscando primero entre nuestras compañeras, antes de recurrir a los grandes comercios. Usamos dinero en este intercambio, pero preferimos trabajar con el sistema de trueque, eliminando el vil metal, ya tan escaso en la clase trabajadora.

Como una de nuestras actividades de grupo, estamos construyendo esta página para divulgar nuestro trabajo. Te invitamos a acompañar nuestras publicaciones, conocer a cada una de nosotras y apoyar esta iniciativa6 (GRUPO DE ECONOMIA SOLIDÁRIA FEMINISTA — RIVERAMENTO, 2020).7

O grupo do Facebook possui papel central para o relacionamento com a comunidade das duas cidades por meio de publicações diárias, onde:

a) são oferecidos os produtos e serviços das mulheres participantes, como: comidas prontas, viandas, doces, roupas, massagens, serviços de estética, atendimento psicológico, aulas de dança, de idiomas, produtos de beleza, pães, vídeos com receitas, etc.;

b) são anunciadas as compras coletivas semanais dos alimentos de cultivo orgânico, produzidos por mulheres em dois assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. As compras são feitas no Grupo de Whatsapp e entregues duas vezes por semana no Entreposto do EcoSol Riveramento, um espaço cedido na residência de uma das coordenadoras do grupo em Rivera, onde todas as participantes podem deixar seus produtos à venda, trueques, etc. Abaixo, a arte da publicação das compras coletivas e uma imagem de alguns produtos no Entreposto.

Figura 1 — Compras Coletivas de alimentos orgânicos do MST
Fonte: GRUPO DE ECONOMIA SOLIDÁRIA FEMINISTA — RIVERAMENTO, 2020.

c) são apresentados debates e denúncias sobre temas ligados aos Direitos Humanos e Sociais das mulheres da fronteira e da América Latina como um todo. As cidades de Santana do Livramento e Rivera são reconhecidas regionalmente pelo elevado número de casos de violência contra mulheres, meninas e feminicídios (COSTA, 2020a). Algumas das centenas de fotos podem ser observadas abaixo.

Figura 2 — Campanha pelo fim da violência contra a mulher na fronteira
Fonte: GRUPO DE ECONOMIA SOLIDÁRIA FEMINISTA — RIVERAMENTO, 2020

d) são realizadas dezenas de lives sobre a temática da ES, dos movimentos e coletivos feministas, da violência contra as mulheres e crianças no Brasil e no Uruguay, sobre a prevenção do Covid-19, sobre o machismo, a homofobia e o racismo na “Fronteira da Paz”, entre outras;

e) e, ainda, são publicadas uma série de matérias semanais especiais sobre a história e militância de mulheres revolucionárias da América Latina, abaixo algumas delas.