CALL FOR PAPERS: DOSSIÊ “LITERATURA E RESISTÊNCIA” OUT.-DEZ (2020)

 

A esfericidade de nossa morada, com suas voltas, revoltas, evoluções e revoluções, parece que nos acorda todo dia para dizer que nada está parado no espaço e no tempo. Tentamos fixar o tempo, inventando a escrita, mas a escrita inventou a História e, como diz o povo, quem conta um conto, aumenta um ponto. Não há nada na experiência humana que se fixe no tempo. Ao longo dos séculos, muitas metáforas foram usadas para traduzir essa dinâmica da natureza e da cultura… Heráclito de Éfeso, há vinte e cinco séculos, refletia que não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois as águas se renovam constantemente. Bem mais recentemente, em meados do século dezenove, Marx e Engels, refletindo sobre a dinâmica histórica, afirmavam que tudo que é sólido se desmancha no ar. Aqui mais perto de nós, também um profeta cearense, conhecido como Antônio Conselheiro, à frente de sua comunidade religiosa, profetizava que o sertão ia virar mar, e o mar ia virar sertão. E, arrematando essas inferências, a voz da ativista e filósofa Angela Davis traduz a versão dessa dinâmica nos termos da contemporaneidade: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”

Num mundo em que tudo gira, gostamos de datas redondas… Neste ano de 2020, rememoramos os 190 anos de Luís Gama, os 130 anos de Oswald de Andrade, os 110 anos de Patrícia Galvão – Pagu –, os setenta anos de Eliane Potiguara e, ainda bem jovem, os quarenta anos de Djamila Ribeiro… E que têm em comum esses nomes? Sem dúvida, o fato de terem dado forma literária ao motoperpétuo da Humanidade, no percurso histórico de sua humanização. Diferentes quanto ao gênero, à etnia e mesmo à condição social de classe, trata-se de escritoras e escritores que decidiram resistir aos que, por artimanhas ideológicas, tentam fazer crer que a História acabou, e que assim tudo é e será como sempre foi… Os mais renitentes chegam a regredir aos tempos inquisitoriais, espalhando por aí que só há duas dimensões no espaço cósmico onde vivemos.

É a arte literária da resistência que inspira este dossiê da Revista Entrelaces. Convocamos pesquisadoras e pesquisadores a apresentar seu trabalho sobre o tema “Literatura e Resistência”. Conclamamos a crítica literária, sob os mais diversos olhares, a refletir sobre o legado poético, ficcional, teatral e ensaístico que herdamos e do qual dependemos para entender o sentido poético do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “a vida presente”, pressuposto para que nos debrucemos sobre a estética do futuro, para onde esperamos ir sempre “de mãos dadas”.

A Revista Entrelaces espera, assim, confirmar-se como espaço acadêmico de dinamização e resistência cultural. Esperamos entremear os fios desse legado de resistência literária aos pontos da reflexão crítica plural, contando com quem não dá ponto sem nó e nem perde o fio histórico da meada.

Professor Doutor José Leite de Oliveira Junior (UFC)

Sua colaboração deve chegar até esta data: 30/09/20.